Atendimentos na área de Saúde são prejudicados pela greve na Universidade Estadual da Paraíba

26 de junho de 2017

Decretada há mais de dois meses, a greve dos servidores técnicos administrativos e professores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) tem gerado um grande prejuízo social para a população que depende dos serviços de Saúde ofertados gratuitamente pelas Clínicas Escolas da Instituição. Muitos pacientes que dependem das clínicas, por não possuírem condições de pagar por um tratamento particular, têm voltado para casa sem atendimento, o que pode comprometer o próprio tratamento de saúde que vinham recebendo.

Com estágio obrigatório para estudantes, as Clínicas Escolas de Fisioterapia, Psicologia, Enfermagem e Odontologia oferecem atendimentos gratuitos a população, mas desde que os técnicos e docentes entraram em greve as clínicas reduziram o atendimento ao público e os transtornos para quem mais precisa são visíveis, conforme reclamam os próprios pacientes.

A Clínica Escola de Fisioterapia, por exemplo, em funcionamento, atende em média 100 pessoas por dia. Com a greve, esse número despencou em 80%. De acordo com a coordenadora da Clínica, professora Lourdinha Oliveira, apenas os casos mais críticos continuam recebendo atendimento normalmente, como são os casos de pacientes com microcefalia. Segundo ela, a clínica está operando com apenas 30% de sua capacidade, conforme determina a lei, e grande parte dos serviços estão sendo realizados por estudantes e professores que desenvolvem projetos e pesquisas de extensão.

Apenas dois projetos de extensão continuam em funcionamento, uma vez visto que não podiam parar as atividades sob o risco de gerar transtornos irreversíveis aos pacientes. Continuam em atividade o projeto que trata de pacientes com microcefalia e o projeto Disfunção Têmporo Mandibular. “Acordamos que aquelas situações bem críticas, que com a falta das atividades de fisioterapia poderiam causar um transtorno maior, quem sabe até o óbito em situações extremas, iriamos continuar atendendo”, observou a coordenadora.

A dona de casa Alessandra Sousa Amorim conseguiu uma vaga na Clínica para o seu filho que tem microcefalia no final do ano passado. Desde que iniciou o tratamento, ela notou a evolução na saúde do filho devido a eficiência do serviço e ela teme que, caso a greve seja prolongada por muito tempo, o acompanhamento do filho seja prejudicado. “O tratamento está ajudando muito no desenvolvimento dele. Se parar o atendimento, vai parar o desenvolvimento dele também. Fica complicado para a gente que é mãe e quer ver a evolução do filho”, observou.

A greve também afetou os serviços realizados pelas Cínicas de Odontologia, que estão funcionando apenas com 30% dos servidores. Por causa da greve, só estão sendo atendidos pacientes que dependem das clínicas que realizam os chamados serviços essenciais, cujos tratamentos não podem ser interrompidos. É o caso da clínica que realiza tratamento a lazer em pacientes oncológicos encaminhados pelo Hospital da FAP e que passam por quimioterapia ou radioterapia. Também estão funcionando o Laboratório de Biossegurança que trabalha com o serviço de histopatologia, entre outros serviços que são referências e não podem parar.

Em compensação o atendimento nas chamadas clínicas integradas está totalmente suspenso por causa da greve. “Optamos em manter funcionando os serviços essenciais que são referências e não podem parar. Nas clínicas integradas o atendimento está suspenso”, destacou a chefe de Departamento de Odontologia, professora Nadja Oliveira.

Quando está em pleno funcionamento, a Clínica de Odontologia da UEPB chega a atender mais de 250 pessoas por mês e 2.500 por ano. Referência na oferta de serviços em tratamento bucal, a clínica realiza restaurações, serviços de endodontia (tratamento de canal), periodontia (raspagem), cirurgia, ortodontia, dentística e prótese, sendo este um dos mais procurados. Além disso, são realizados atendimentos em odontopediatria, voltado para crianças, e radiologia, reconhecido como um setor de referência em Campina Grande.

Inevitavelmente, a greve também está causando transtornos aos pacientes assistidos pela Clínica de Psicologia, que oferece a comunidade o serviço de plantão de escuta psicológica, orientação vocacional e também grupos terapêuticos. Devido a interrupção das aulas e paralisação dos técnicos, o atendimento praticamente foi interrompido e apenas um servidor técnico administrativo continua trabalhando para garantir o funcionamento mínimo da unidade.

A coordenadora da clínica, professora Carla Brandão, explica que a greve tornou inviável a realização dos serviços, visto que muitos estagiários que moram fora retornaram para as suas cidades de origem. “O atendimento realizado pelos estagiários foi suspenso, porque nós também pensamos na segurança de todos”, observou a professora. Ela conta que o único técnico que continua atendendo vem a Clínica todos os dias, estando disponível para atender de acordo com a demanda.

Os prejuízos sociais a população são irreparáveis. Os onze consultórios disponíveis no 1º andar do Prédio de Psicologia, realizam em média, mais de 500 atendimentos mensais. Somente com os atendimentos de psicoterapia individual, o número de consultas mensais ultrapassa os 250. Já os atendimentos de triagem e escuta somam mais de 300. Os pacientes tanto podem ser encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como podem procurar diretamente a Clínica Escola, preenchendo cadastro na Secretaria do setor.

Além desses serviços, os estagiários da Clínica também realizam serviços externos, nos hospitais, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), no Instituto dos Cegos, escolas e empresas. A professora Carla Brandão ressaltou que a permanência ou interrupção desses serviços externos ficou a critério dos supervisores. Muitos optaram em continuar com o tratamento para não causar danos aos pacientes.

Na Clínica de Enfermagem, que também funciona no CCBS, o atendimento também sofreu mudanças por causa da paralisação. Responsável pelo agendamento de consultas médicas ginecológicas, pediátricas e endócrino pediátricas com médicos credenciados, o setor praticamente está parado. A enfermeira Débora Leitão Madureira Araújo revela que, mesmo com a greve, a clínica vem abrindo as sus portas mas faltam pacientes para ser atendidos. “Sem estudantes e professores na Universidade, as pessoas não procuram a clínica”, frisa.

Quando está em plena atividade, a clínica que funciona como Enfermaria Escola para os alunos da graduação em Enfermagem, realiza em média 500 atendimentos dentro das especialidades de Endocrinologia, Ginecologia, Obstetrícia, Clínica, Pediatria e Imunologia. No que se refere às áreas da Enfermagem, a CCE atua no campo de Promoção da Saúde, Saúde Coletiva, Saúde da Mulher, Saúde da Criança e Imunologia.

Tânia Nascimento Tavares é responsável pela digitalização dos procedimentos realizados por todas as clínicas junto ao Serviço Único de Saúde (SUS). Ela conta que depois que os professores e técnicos entraram em greve essa atividade praticamente foi suspensa. O Laboratório de Análises Clínicas (LAC) também suspendeu a realização dos exames a população durante o período de greve.

A diretora do CCBS, professora Alessandra Teixeira, ressaltou que a greve realmente tem refletido em prejuízos a população. Conforme explicou, as Clínicas têm respeitado os 30% de manutenção dos serviços exigido por Lei e os casos essenciais não sofreram interrupção. Ela destacou o direito legítimo da greve dos técnicos e docentes, mas também observou que, inevitavelmente, qualquer paralisação se reflete na população que precisa dos serviços públicos das instituições.

 

 

Texto: Severino Lopes
Foto: Tatiana Brandão