1º Seminário Interinstitucional de Diversidade é realizado no Câmpus VII da Universidade Estadual

6 de novembro de 2017

A Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), através do Centro de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas (CCEA), em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Instituto Federal da Paraíba (IFPB), realizou entre os dias 30 de outubro e 1º de novembro, no Auditório Celso Furtado, no Câmpus VII, em Patos, o 1º Seminário Interinstitucional de Diversidade (SEMID).

Abordando a temática “Memória, Cultura e Resistência: perspectivas afroparaibanas”, o evento constituiu-se como espaço de discussão e análise reflexiva acerca das questões sociais, culturais, políticas, econômicas e educacionais, disseminando a importância da população afrodescendente no processo de formação identitária do Brasil, fortalecendo o combate ao preconceito étnico-racial e a luta por direitos igualitários.

A solene de abertura oficial do SEMID contou com a tríade representante das Instituições de Ensino Superior realizadoras do evento: Adriano Homero Vital Pereira, diretor do Centro de Ciências Exatas e Sociais Aplicadas da UEPB; Hélio Rodrigues de Brito, diretor-geral do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Câmpus Patos; e Wilson Wouflan Silva, vice-diretor do Centro de Saúde e Tecnologia Rural (CSTR) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Câmpus de Patos.

Os representantes das IES abriram a sessão solene com um resgate sobre o processo histórico-social de formação identitária do povo brasileiro, ressaltando as contribuições dadas por diferentes grupos étnicos, e discorreram sobre a importância do Seminário como espaço de reflexões críticas e ações políticas de luta e resistência negra no enfrentamento à defesa dos direitos da população afro-brasileira e o combate às manifestações de discriminação, preconceito e intolerância étnico-racial.

As atividades do evento tiveram início com a exposição dialogada “Olhares D’África”, do artista plástico Lucas Kandede, natural da República Unida da Tanzânia – África Oriental. Com uma explosão de cores que descreveu a alegria do povo africano, Lucas retratou os aspectos gerais da história e da cultura africana dissociando visões preconceituosas e reducionistas sobre o continente em telas vibrantes que coloriram a primeira noite do evento.

Após a exposição, a ressonância coletiva de “Experiências e Vivências em Comunidades Quilombolas” retiniu no Auditório Celso Furtado. Mediada pela professora Nádia Farias, a roda de conversa com a psicóloga Irismar Batista de Lima, a jornalista Dilane Silva e as alunas Aline Marques e Ana Karolyne Amorim, remeteu à ancestralidade, as tradições e práticas culturais destes povos e impeliram a (re)construção de olhares sobre a história e a vida cotidiana dos remanescentes quilombolas.

Pautadas na ideia de resgate à identidade cultural quilombola, as convidadas discorreram acerca do panorama histórico e social e das ações desenvolvidas nas comunidades remanescentes de quilombos Serra Feia e Caiana dos Crioulos, localizadas respectivamente nas cidades de Cacimbas, no sertão da Paraíba e na zona rural no município de Alagoa Grande, no agreste paraibano, e arguiram sobre o modo como essas comunidades organizam suas referências e perspectivas identitárias nas interações de sociabilidade étnico-culturais e como o Estado, por meio de ações e políticas públicas, interfere nessa relação.

Atabaque, berimbau e agogô deram o tom às atividades de abertura do 2º dia do Seminário Interinstitucional de Diversidade. Com muito gingado e uma combinação de luta, dança, cultura popular e música, os integrantes do grupo Raça Nova abriram a Roda de Capoeira no auditório do Câmpus VII da UEPB e movimentaram o evento com uma autêntica expressão da cultura afro-brasileira.

A afirmação de uma identidade negra, embasada no resgate da história real do povo africano e seus descendentes, foi o tema norteador das rodas de conversa no segundo dia do evento. O protagonismo negro em suas mais significativas formas de expressão ocupou o lugar de destaque nas falas de Lúcia de Fátima, Patrícia Aragão e Waldeci Ferreira, na roda de conversa “Representações, Vozes e Lugares: protagonismo negro na construção da Paraíba”, mediada pela professora Janine Dias.

A conversação entre os professores abordou questões pertinentes às lutas vivenciadas pela população afro-brasileira na busca pela emancipação e mobilização política, e suas conquistas sociais como produtos do enfrentamento e resistência a opressão e violação de direitos experienciadas por este grupo étnico-racial. A conferência foi encerrada com a apresentação do grupo de dança afro Explode Sabugi, coordenado por Hilda Norberta.

Numa perspectiva vinculada a ancestralidade africana, um memorial de resistência do povo afrodescendente nos foi apresentado pelas Iyalorixás Adriana Ty Ogunté e Mãe Renilda de Oxóssis. Mediada pela professora Patrícia Aragão, a roda de conversa “Quilombos e terreiros: territórios seculares de resistência negra”, elucidou os aspectos sociais entrelaçados à prática religiosa de raízes africanas encerrando as atividades da manhã do segundo dia do evento.

Oficinas, minicursos e exposição fotográfica foram realizadas no Câmpus VII durante toda a tarde. A exposição “Troncos Velhos Galhos Novos, do fotógrafo italiano radicado na Paraíba, Alberto Banal, foi aberta ao público e recebeu a visitação de alunos de escolas municipais da cidade.

A exposição abordou duas perspectivas do povo quilombola, a partir da raiz da tradição cultural e o advento da modernidade, mostrada a face de anciãos e jovens que carregam a dualidade da preservação dos valores da ancestralidade e a dissolução da raiz cultural matriz mediante a inovação sob influência cultural externa.

A noite, ao som dos tambores e cantigas que falam das ações e atributos dos orixás, visitantes, filhos de santo e divindades ancestrais uniram-se em uma manifestação religiosa de ascendência africana candomblecista. Os filhos e filhas do Ilé Maroketú Asè Omò Orúm, liderado pelo Babalorixá Luiz de Oyá, apresentaram um ritual sagrado de culto aos seus orixás e concederam para o SEMID o axé de sua casa.

A essência do ritual transbordou a expressão estética da cultura deste grupo e tomou em comunhão os presentes. Pai Luiz de Oyá e Mãe Renilda de Oxóssi fizeram um discurso emocionado sobre a importância deste momento, e a valorização e resgate a cultura afro-brasileira favorecendo a desconstrução dos conceitos negativos sobre as religiões de matrizes africanas.

A resistência cultural e religiosa na preservação da herança africana continuou em debate na roda de conversa “Nas encruzilhadas identitárias: religião, cultura e resistência negra na paraíba”, integrada por Adriana Ty Ogunté e pelos professores Wallace Ferreira e João Paulo Silva e mediada pela professora Nadia Faria. Os convidados encerraram as atividades do dia debatendo sobre as formas correlatas de preconceito, discriminação e intolerância étnico-racial e às manifestações afro-religiosas e o combate a essa prática marcada por movimentos sociais de base identitária.

O último dia do evento abriu espaço para sétima arte com a primeira mostra itinerante de cinema afrocentrado realizado na Paraíba. Sob curadoria de Carine Fiúza e Thiago costa a Mostra Pilão de Cinema trouxe ao ecrã filmes que abordam a arte, luta e ancestralidade do povo negro. Durante a mostra foram exibidos filmes de curta-metragem em sessões voltadas ao público infanto-juvenil e adulto.

Os curadores e o professor João Paulo da Silva participaram da roda de conversa “Corporeidade, Expressão e negritude: presença negra nas artes paraibanas”, mediada pelo Diretor do Câmpus VII, Adriano Homero Vital Pereira. Os convidados discutiram o processo histórico do Cinema Negro no Brasil e os discursos que permeiam o tema abordando a representação negra, a identidade étnico-racial e as manifestações das diversas negritudes no cenário audiovisual e no âmbito político e social brasileiro.

A primeira edição do SEMID terminou com o depoimento da professora Nádia Farias, responsável pela organização do evento, que arguiu sobre as contribuições do Seminário e agradeceu a todos os envolvidos pela dedicação e empenho na realização do evento.

 

Texto: Tatiany Escarião
Fotos: Sara Andrade (Coletivo Espinho Branco)