Técnica de estimulação magnética transcraniana auxilia reabilitação motora após lesão medular

17 de Abril de 2017

Uma pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Neurociências e Comportamento Aplicadas (LANEC) do Departamento de Fisioterapia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) espera contribuir para a melhoria motora de pessoas que sofrem com lesão medular. A técnica, ainda recente na comunidade científica e pouco aplicada nas unidades de saúde do país, utiliza um equipamento chamado de Estimulador Magnético Transcraniano para estimular os movimentos de pessoas que sofreram algum trauma medular.

Dependendo da frequência utilizada no equipamento, os estímulos aplicados podem aumentar ou diminuir a atividade da área cerebral atingida e, assim, pode-se equilibrar o funcionamento neuronal cortical e medular de acordo com o problema apresentado. Sob o título “Estimulação Magnética Transcraniana em Pacientes com Lesão Medular” a pesquisa, coordenada pelas professoras Valéria Ribeiro Nogueira Barbosa e Gilma Serra Galdino, teve origem com a aluna Amanda Vitória Lacerda de Araújo após estudar os mecanismos de ação da Estimulação Magnética Transcraniana.

Ela também analisou as conexões cerebrais e medulares que poderiam ser estimuladas para promoção de melhora motora após a lesão medular incompleta e apresentou a ideia para as professoras, que observaram o potencial da pesquisa, realizaram contribuições e, através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), em 2014, iniciaram o estudo com pacientes da Clínica Escola de Fisioterapia da UEPB. “Ficou evidente que o controle motor dos pacientes foi bem positivo. É tanto que essa aluna conseguiu um mestrado na Universidade de São Paulo (USP) por causa dos resultados que obteve nesse PIBIC”, destacou a pesquisadora Valéria Ribeiro.

Por verem na pesquisa uma importante ferramenta de promoção da reabilitação motora e meio imprescindível para o crescimento do conhecimento científico, as professoras doutoras Valéria Ribeiro e Gilma Galdino resolveram manter a pesquisa. Além disso, é preciso destacar que a pesquisa obteve resultados positivos e pode representar o início de uma nova ferramenta de reabilitação para pessoas com lesão medular, mas são necessários novos estudos para que os resultados observados até o momento possam ser confirmados.

Caio Henrique Oliveira Pinto Brandão, aluno do 9º período, fez parte da primeira equipe e hoje é um dos responsáveis pelo andamento dos trabalhos. Ele explica que quando se estimula o cérebro, a execução do movimento fica mais fácil. Clinicamente, o paciente com lesão medular apresenta perda de função motora e da capacidade de executar determinados movimentos. A motricidade voluntária é reduzida. Associada a essa perda vem uma série de sintomas com reflexos das lesões causadas por traumas patológicos, como acidentes de carro, motos, armas de fogo ou armas brancas, bem como o fator hereditário. “Essas aplicações com EMT vão repercutir nas fibras da medula. Ou seja, a gente vai aumentar o estímulo, o que proporciona uma melhor facilidade para o cérebro desempenhar algumas funções”, explica Caio.

Devido ao sucesso da pesquisa, a professora Valéria diz que a utilização do equipamento representa uma revolução dentro da neuromodulação. Como se trata de uma pesquisa, o número de sessões, o tempo e parâmetros de estimulação são estabelecidos para todos os pacientes, não havendo, assim, diferença entre um paciente e outro. Os pacientes são assistidos dentro de um prazo limitado estabelecido na pesquisa. Mesmo o tempo sendo curto, os pacientes relatam evolução clínica perceptível. “Verificamos que os pacientes que passaram pela pesquisa obtiveram melhoras significativas, evidenciadas por exames”, frisa Caio Brandão.

Todos os pacientes assistidos no Laboratório de Neurociências e Comportamento Aplicadas são acompanhados por uma equipe multidisciplinar, composta pela neurologista e professora da Clínica Escola de Fisioterapia, Gilma Serra Galdino, e a professora Valéria Ribeiro, acompanhadas por estudantes fisioterapeutas. Além de Caio, outros oito alunos estão envolvidos na pesquisa, a exemplo das graduandas Patrícia Manuela Pereira e Débora Araújo Nascimento.

O primeiro equipamento de Estimulação Magnética Transcraniana Repetitiva (EMTr) semelhante ao que é utilizado hoje surgiu em 1975, na Grã-Bretanha. Na UEPB, ele foi solicitado pela professora Doralúcia Pedrosa (já falecida), como resultado do doutorado da mesma. Assim, iniciaram-se as pesquisas com a Estimulação Magnética Transcraniana no Departamento de Fisioterapia, contribuindo para o crescimento do conhecimento científico em diversas áreas da Neurociência e para promoção de saúde dos pacientes com diversos distúrbios neurológicos.

Em todo o Nordeste, apenas três instituições dispõem do aparelho. Além da UEPB, utilizam o equipamento no atendimento com Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva (EMTr) para tratamento da dor crônica o Instituto de Neurologia e Neurocirurgia Paraíba – INNPAR, sediado em João Pessoa, e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Tratamento para portadores de enxaqueca

A cefaleia (dor de cabeça) é uma das dores mais prevalentes na população em geral, com vários tipos de classificação. Neste sentido, a migrânea, conhecida como enxaqueca, é um dos tipos de cefaleia mais incapacitante, sendo classificada em migrânea aguda ou crônica (com duração maior ou igual a 15 dias). Na maioria dos casos, pode vir acompanhada de enjoo, vômitos, sensibilidade à luz, barulho e cheiros. O tratamento consiste de terapia medicamentosa, podendo estar associada à Fisioterapia Neurofuncional a partir de técnicas inovadoras como a Neuromodulação Cortical não invasiva.

Neste cenário, pesquisa vinculada ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), coordenada pela professora Carlucia Ithamar Fernandes, com colaboração da professora Gilma Serra Galdino, intitulada “Estimulação Magnética Transcraniana Repetitiva (EMTr) em indivíduos portadores de Migrânea Crônica”, tem obtido resultados satisfatórios, através da redução da intensidade e número de crises de migrânea.

O estudo é desenvolvido no Laboratório de Neurociências e Comportamento Aplicadas (LANEC) do Departamento de Fisioterapia da Universidade Estadual da Paraíba. A técnica também usa o aparelho Estimulador Magnético Transcraniano para ajudar a combater as enxaquecas e dores de cabeça. A pesquisa foi iniciada há pouco mais de três anos, cujos indivíduos participantes são diagnosticados com migrânea crônica pela cefaliatra da Clínica de Fisioterapia da Instituição, Gilma Galdino, e em seguida encaminhados para iniciar a Neuromodulação no LANEC.

A EMTr gera um campo magnético que induz uma corrente elétrica capaz de excitar ou inibir a atividade cortical, a depender da frequência utilizada. Inicialmente, os indivíduos são submetidos a instrumentos de avaliação através de escalas específicas nos períodos pré, pós e follow-up. Após esta fase, os participantes são submetidos à intervenção com EMTr na área M1 ou no Córtex Pré-frontal Dorsolateral esquerdo, três vezes por semana, totalizando 10 sessões com duração de 20 a 30 minutos cada.

O projeto compreende quatro acadêmicos de iniciação científica e três voluntários, sendo dois deles responsáveis pela aplicação da EMTr: Mirian Celly Medeiros Miranda David e Thais de Sousa Andrade. Após concluir as sessões, os pacientes retornam para a doutora Gilma Galdino e muitos relatam os efeitos positivos da técnica no alívio das dores de cabeça.

“Geralmente o paciente tem uma frequência alta de dor e o que queremos é diminuir essa intensidade, bem como a frequência de crises”, salienta a acadêmica Mírian Celly. Segundo a estudante, as áreas do cérebro estimuladas pela EMTr estão sendo pesquisadas pela comunidade científica, sendo associadas com ativação de mecanismos de analgesia e percepção da dor. A professora Carlucia Ithamar enfatiza que a dor de cabeça é sempre um incômodo e mexe muito com a vida das pessoas. Segundo a especialista, a dor está associada a vários fatores como a questão emocional, a alimentação inadequada e fora de hora, fatores genéticos, estresse psicológico, hormonal (este mais frequente na mulher).

A estimulação magnética tem sido estudada em doentes com enxaqueca, tanto como medida preventiva bem como uma técnica para tratamento agudo que, quando necessária, é utilizada no início da dor. Esse dispositivo produz campo magnético na parte posterior da cabeça e não se faz necessário procedimento cirúrgico.

 

 

Texto: Severino Lopes
Foto: Tatiana Brandão