Setembro Amarelo na UEPB: Especialistas ressaltam importância de ações que visem prevenir o suicídio

19 de setembro de 2019

Os dados são alarmantes. Quase 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no planeta, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Essa é a segunda maior causa de morte entre jovens, atrás apenas dos acidentes de trânsito. No Brasil, a cada dia morre mais de 30 pessoas por essa mesma causa. No mundo do trabalho, um estudo recente mostrou que essa “epidemia” cresce a cada dia. Falar sobre o assunto é sempre um desafio e muitos fogem do tema, com medo de enfrentar a realidade.

Integrada ao “Setembro Amarelo”, campanha de conscientização sobre a prevenção ao suicídio, a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), através da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP), trouxe o tema para ser debatido dentro da academia. A ação “Precisamos conversar sobre a vida” teve início na manhã desta quinta-feira (19), no Auditório da Biblioteca Geral, no Câmpus de Bodocongó, e reuniu especialistas que abordaram o tema na perspectiva da prevenção.

Antes da mesa redonda, professores da UEPB discorreram sobre a importância da iniciativa, que visa, primordialmente, contribuir para reduzir as estatísticas. Reitor da Instituição, o professor e psicólogo Rangel Junior apontou algumas estratégias que transcendem o ambiente institucional. A prevenção por meio do diálogo ainda é o caminho para impedir que uma pessoa cometa um ato extremo contra sua vida. Com olhar de psicólogo, Rangel disse que as pessoas precisam se capacitar humanamente para viverem bem. Nessa perspectiva, ele ressaltou que um olhar atento para o outro e até mesmo uma conversa de alguns minutos com quem está desesperado podem salvar uma vida.

Rangel Junior observou que “a vida estará sempre em pauta, com seus conflitos e perspectivas de buscas permanentes das pessoas pela felicidade, ou sintonia com o mundo. A vida é tensa, com conflitos em todas as situações e em tudo que se enfrenta desde o nascimento, que é um ato muito traumático mesmo com toda beleza que existe. Nós precisamos aprender bastante sobre a vida e tudo o que envolve esse padrão de conflito cotidiano, buscar compreender as transformações que o mundo vem passando e como essas transformações interferem na vida das pessoas”, observou.

Para o reitor, é preciso ter a capacidade de transformar experiências conflituosas em aprendizado e maturidade. Ele destacou que a UEPB, como instituição, está preocupada com essa temática e, por isso, vem construindo alternativas de reflexão e debate, além da oferta permanente de escuta psicológica a estudantes e servidores, no sentido de ajudar todos a desenvolverem a capacidade de perceber sinais de conflitos ligados à vida e saber administrá-los. O desafio, segundo ele, é transformar os conflitos em experiências exitosas.

O vice-reitor da instituição, professor Flávio Romero, enfatizou que o suicídio afeta pessoas de todas as idades e não pode ser encarado apenas numa perspectiva religiosa ou financeira. Como educador, Flávio observou que, nos últimos anos, tem estudado e escrito sobre o suicídio, cuja temática, principalmente nas redes sociais, tem sido permeada de opiniões que não estão de acordo com a realidade. Para ele, o suicídio é uma epidemia, que só será combatida quando o sistema público e privado de educação se voltar para o problema, fazendo o enfrentamento da temática na perspectiva da precaução. Isso, porque, segundo ele, o mundo está atravessando uma crise civilizatória, com uma sociedade enferma. “Precisamos encarar esse fenômeno dentro de uma perspectiva multidisciplinar, em que tenha como foco a questão existencial. São os vazios da alma e a falta de perspectiva sobre diversas camadas”, ilustrou.

A pró-reitora de Gestão de Pessoas, professora Célia Regina Diniz, disse que a universidade pode colaborar na construção de um discurso de prevenção do suicídio. Célia destacou que a UEPB abraçou essa causa de transformar a campanha “Setembro Amarelo” em uma política institucional. Ela citou algumas ações da PROGEP voltadas para a prevenção, como a Escuta Psicológica para os servidores. “Esse é um tema de grande relevância e de saúde pública. Nós precisamos trabalhar na prevenção primária, desenvolvendo políticas de saúde para que a gente possa reverter esse quadro”, alertou.

Embora o evento tenha sido voltado especificamente para os servidores, a UEPB tem tido todo um olhar para os estudantes que enfrentam problemas psíquicos. Nesse sentido, a pró-reitora Estudantil, professora Núbia Martins, enfatizou que a Instituição tem realizado um conjunto de ações voltadas ao tratamento da saúde mental que visam ajudar os estudantes a superar traumas e conflitos existenciais. Entre as ações, ela destacou a realização de palestras, rodas de conversas e implantação de dois grupos terapêuticos para dar suporte aos estudantes. “Sabemos que o sofrimento psíquico é muito grande. Temos vários estudantes em sofrimento dentro da academia. Mas, dentro do possível, estamos tratando dessa temática, dando total assistência aos estudantes”, frisou Núbia.

Segundo especialistas em saúde mental, o suicídio vem se configurando como uma tragédia global, pessoal e também familiar. Trata-se de uma tragédia silenciosa que, muitas vezes, é uma denúncia de uma crise coletiva e, por isso, é preciso pensá-la como um problema de saúde pública e atuar no sentido de criar políticas públicas voltadas para essa questão.

Conversando sobre o suicídio no contexto universitário

A mesa redonda “Conversando sobre o suicídio no contexto universitário” abriu os trabalhos do evento teve a participação da professora e psicóloga Valéria Morais, que falou sobre “Saúde mental no trabalho”; do professor e psicólogo Edivan Gonçalves, que discorreu sobre “Saúde mental e o suicídio: pela valorização da vida”; e da professora e psicóloga clínica Lorena Bandeira, que tratou sobre “Vazio existencial e o sentido da vida”.

Valéria Morais apresentou dados e fez uma reflexão sobre a realidade do mundo do trabalho, as vultuosas mudança que esse campo vem sofrendo e o impacto das mudanças da época na saúde mental do trabalhador. A especialista alertou que a vida vai além do trabalho e as pessoas precisam viver contentes e na simplicidade, não se afogando na busca pelo acúmulo de bens. “Quando a gente fala em mudanças, trata-se de uma demanda para o trabalhador que, em muito, corresponde a carga psíquica do trabalho”, alertou.

Ela observou que o estresse e seus desdobramentos têm trazido sérios prejuízos ao potencial laborativo de muitos trabalhadores e o resultado é a depressão, que pode levar ao suicídio, que vem como “grito maior”. A psicóloga considerou extremamente pertinente e relevante a iniciativa da UEPB. “É uma discussão que a academia precisa efetivamente aprofundar, com um discurso que possa se refletir na sociedade como um todo. A academia tem esse papel educativo”, salientou.

Acolher como forma de prevenção. Os fatores de proteção ao suicídio nortearam a fala do psicólogo Edivan Gonçalves. O especialista alertou para a importância das pessoas estarem sensíveis e perceberem os sinais de sofrimento de quem está prestes a cometer um ato extremo. “Temos que entender que essa dor precisa ser acolhida. Precisamos falar disso para dar o devido suporte. Então, precisamos saber quais são as redes de apoio para trabalhar uma forma de alívio para esse sofrimento”, destacou o professor.

Uma das causas dos problemas psíquicos está relacionada ao vazio existencial e à perda do sentido da vida. A incumbência de falar desse tema foi da professora e psicóloga Lorena Bandeira, também da UEPB. Em sua explanação ela mostrou como o vazio existencial tem contribuído para aumentar os casos de suicídio, principalmente no contexto do trabalho. Para ela, o esvaziamento interior, em muitos casos, é causado pelas frustrações. “O vazio existencial estaria na falta de uma vida plena de sentido. Quando não acontece isso, a gente entende que existe uma vida vazia existencialmente”, observou.

Mesmo não havendo uma fórmula para a felicidade, a especialista apontou alguns caminhos para encontrar sentido na vida, como a busca por valores, seja na realização no trabalho ou nas relações com a família. A religião, segundo ela, pode ajudar positivamente para a pessoa encontrar o sentido da existência, mas não como algo impositivo.

A mesa redonda foi mediada pela pró-reitora adjunta da PROGEP Ana Paula Lima da Silva, que também destacou a importância das ações que a UEPB tem realizado dentro da campanha Setembro Amarelo. “A UEPB não podia deixar de participar dessa campanha, tendo em vista a necessidade de se discutir o suicídio, que é uma questão individual, familiar e social e que exige um enfrentamento com políticas públicas”, destacou.

Também nesta quinta, no hall do Prédio Administrativo da Instituição, houve panfletagem sobre o serviço de Plantão de Escuta e Aconselhamento e o “Mutirão da Escuta Psicológica”, na Sala 107 da PROGEP (para servidores da Universidade) e na Clínica Escola de Psicologia (para estudantes).

Próximas ações

As atividades seguirão no dia 27 de setembro, das 8h às 12h, no Auditório de Psicologia, será ministrada a oficina “Ocorrências em saúde mental”, com os facilitadores Candice Lira, psicóloga clínica, especialista em Saúde Mental; Rita Galdino, enfermeira do CAPS; Maísa Ferraz, técnica em Enfermagem do Trabalho da PROGEP; e Juliana Grangeiro, assistente social da PROGEP.

Outras informações sobre as atividades podem ser obtidas pelos telefones (83) 3315-3488 / 3315-3445 / 3315-3518.

Texto: Severino Lopes
Fotos: Paizinha Lemos